“Gurus” Todo homem deve chegar aos céus à sua própria maneira.

GurusFrederico II (1712-1786), rei da Prússia
Publicado na revista Época Negócios

Gurus, professores espirituais, terapeutas, conselheiros: eu costumava segui-los com devoção. Devorava seus livros, não perdia um seminário e me sentava a seus pés. Durante anos viajei para a Índia, sem dúvida o país com maior índice de gurus por habitante. Todo professor que eu encontrava prometia algum tipo de iluminação ou libertação: um dizia que seria pelo compartilhamento do conhecimento, outro por meditação, Yoga ou recitação de mantras. Alguns pregavam
sermões longos, outros ficavam de boca fechada. Havia os que eram a própria encarnação do amor; outros eram rudes e investiam sem piedade contra seus
seguidores até lhes despedaçar o ego. Muitos desses gurus eram extraordinariamente sábios e enriqueceram muito minha vida.

Contudo, comecei a duvidar se a relação entre um guru e seus seguidores seria mesmo a melhor maneira de atingir a libertação. Afinal, pouquíssimas vezes encontrei um seguidor que houvesse alcançado a iluminação – alguém que parecesse tão sábio e radiante quanto seu mestre. A maioria dos seguidores era gente devota, mas que duvidava muito de si mesma. Percebi também, em mim mesmo, que algumas vezes eu parecia encolher na presença de um guru que inspirava admiração em todos. Seria um sentimento de honra e respeito ou seria medo de me erguer sobre meus próprios pés?

Há mais de mil anos, o mestre zen chinês Lin Chi chamava a atenção para o perigo dos gurus. Ele via como muitos de seus contemporâneos transferiam a responsabilidade por seu bem-estar espiritual para outros. Com isso, dizia ele, as pessoas abriam mão de seu poder e de sua autenticidade. Esta observação o levou a fazer uma declaração que se tornaria célebre: “Se o Buda cruzar seu caminho, mate-o”. Em outras palavras, se você acha que vai encontrar a iluminação fora de si mesmo, está no caminho errado. Afinal, a essência dos ensinamentos do Buda é que todos carregam um Buda dentro de si – ou, em outros termos, todos somos Buda.

Os ensinamentos de Lin Chi continuam atuais ainda hoje. Apesar da extrema individualização do mundo ocidental moderno, as pessoas continuam em busca de algo em que se apoiar. Hoje há mais gurus do que nunca, embora os títulos tenham mudado: conselheiro mental, terapeuta, assistente social.

O mestre Lin Chi tem uma declaração célebre: “Se o Buda cruzar o seu caminho, mate-o”.

O cientista social americano John McKnight, que há mais de 40 anos estuda o efeito dos conselheiros profissionais sobre a sociedade, é um Lin Chi moderno. “Todas as vezes que procuramos um especialista, abrimos mão de uma parte de nós mesmos. Com sua atuação, os conselheiros profissionais esvaziaram a alma da comunidade”, diz ele em The Careless Society (“A sociedade negligente”). “O inimigo não é a pobreza, a doença, as enfermidades em geral, e sim um conjunto de interesses que exigem dependência sob a máscara de prestação de serviço.”

Gurus e conselheiros profissionais não são os únicos que tendem a tornar as pessoas dependentes e a mantê-las subjugadas. Pais e educadores muitas vezes fazem o mesmo. Quantos deles veem o “Buda” nas crianças? Em vez de encorajá-las a confiar em sua sabedoria inata, eles as entopem de fatos e números. Quase nunca perguntamos às crianças quem elas são, e sim o que desejam ser. A mensagem subjacente é a seguinte: vocês não são coisa alguma, mas se fizerem o que recomendamos, poderão se tornar alguém no futuro. Consequentemente, instilam em nós desde cedo que temos de mergulhar fundo na sabedoria dos outros em vez de explorar a sabedoria existente dentro de nós.

A idéia de que temos de nos tornar alguma coisa para sermos bem-sucedidos, livres ou felizes é um enorme mal-entendido. A convicção de que um caminho externo pode nos guiar a algo melhor é a razão pela qual praticamente ninguém jamais chega a seu destino. Se estamos sempre a caminho, jamais chegaremos a parte alguma. No bar que costumo frequentar há uma placa com os dizeres: “Cerveja grátis amanhã”. É claro que o amanhã nunca chega.

Os gurus também prometem a iluminação para mais tarde, condenando seus seguidores à eterna dependência. É uma via de mão dupla. O que seria do guru se ele não tivesse seguidores?

Naturalmente, alguns personagens influentes não ficaram encurralados nessa mútua dependência. Estes são os mestres radicais, que não toleram seguidores nem tietes, porque sabem que a liberdade espiritual só pode ser alcançada por aqueles que ousam se apresentar nus perante a verdade, sem lealdade prévia a uma doutrina ou guru. Jesus jamais teria se tornado cristão, tampouco Buda seria budista. Esses mestres eram rebeldes que seguiam antes de tudo a si mesmos (ou a Deus?). O analista Carl Gustav Jung é mais um exemplo. Certa vez, ele disse: “Graças a Deus não sou junguiano”.

Jung referia-se ao que considerava um problema de relações desiguais em todas as formas de terapia. Ele acreditava que a cura só poderia acontecer se houvesse espaço para a pessoa em toda a sua inteireza. O psicólogo americano Marshall Rosenberg refere-se sem meias palavras à importância da igualdade entre as partes: “Quando o terapeuta se apresenta como tal, a terapia está fadada ao fracasso”.

Uma relação desigual implica a existência de uma muralha que o seguidor dificilmente terá condições de atravessar. Superar o mestre é difícil, sobretudo se aprendemos a não confiar em nossa própria sabedoria. Seria esta a razão pela qual a palavra tibetana para guru, ou lama, é traduzida como “insuperável”? O seguidor não percorre uma trajetória própria, e sim a de um outro, porque se trata de um caminho já palmilhado. Portanto, não há necessidade de muito esforço para segui-lo. Tampouco o discípulo aprende as mesmas lições. A conclusão a que o mestre chega – o resultado do trabalho espiritual – não é a mesma a que chega seu seguidor. O mestre experimentou tanto a trajetória quanto o destino. O discípulo conhece apenas o destino, conforme descrito pelo mestre.

Esta é a razão pela qual os discípulos quase sempre são mais santos do que o papa e mais radicais em suas opiniões do que o mestre. Tais opiniões, não raro, podem ser reduzidas a cápsulas de fácil digestão. Afinal, quanto mais inseguras forem as pessoas, tanto mais se apegarão à “verdade”. Além disso, a maior parte dos discípulos não entende totalmente os ensinamentos do mestre, por isso insights sutis e complexos são pasteurizados de forma a que se convertam em conceitos de fácil absorção e entendimento.

Os gurus prometem a nação para o futuro, e condenam seguidores à dependência.

gurus

O paradoxo que muita gente encontra em sua busca por iluminação se deve ao fato de que esse estado de consciência não corresponde ao apego a “verdades” e “fatos”. Muitas verdades e fatos não passam de pressupostos ou formas de lidar com a realidade. A palavra “fato”, em seu sentido original no latim, “facere”, significa “fazer”. Um fato não é uma verdade, e sim uma criação. Portanto, não perdemos nossa “natureza búdica” por causa daquilo que não sabemos, e sim por causa daquilo que estamos convictos de saber porque outras pessoas assim nos disseram. No momento em que nos convencemos de que alguma coisa é fato, perdemos contato com a realidade. Reduzimos a verdade (supondo-se que ela exista) a uma palavra ou um método, e nos fechamos ao aprendizado e ao crescimento.

Talvez os gurus não sejam mestres a ser imitados. Talvez sejam muito mais exemplos que podem nos servir de inspiração. Eles nos mostram que é possível atingir um estado superior de consciência, mas cabe a nós chegar lá. Portanto, é hora de mandar embora os gurus (fatos, verdades, crenças, princípios, dogmas) para que o guru dentro de nós aflore. É hora de nos tornarmos tão grandes quanto os gurus que seguimos – tão autênticos, peculiares e obstinados quanto eles. Não se trata de um ato de transgressão ou de desrespeito. A maior homenagem que podemos prestar a nossos gurus é deixar claro que não precisamos mais deles. O tratamento deu certo: o guru morreu.