Espiritualidade e Religião

A relação entre espiritualidade e religião traz questionamentos relevantes ao considerarmos o Yoga como um caminho espiritual. A seguir, o Prof.º Oswaldo Marmo discorre sobre o tema.Espiritualidade e Religião

Espiritualidade sem Religiosidade

Espiritualidade

A essência das tradições não-dualistas é a cultura da espiritualidade sem religiosidade. Quem tem a percepção não-dualista vê o Cosmos como um grande espaço consciencial, cuja essência ou estofo é sutil, etérea e, por isso, dita espiritual. Segundo os ensinamentos das tradições não-dualistas, que refletem a vivência mística dos sábios, essa essência é o Absoluto. Por sua vez, ele não é um individuo, mas sim um Ser infinito que, como um grande campo consciencial, “organiza” a manifestação da vida em vários níveis que envolvem uma complexidade além de nossa compreensão humana. A diferença entre um Ser e um indivíduo é que o Ser é, o individuo está.

A “teologia” dos sábios nos ensina que o Ser Absoluto é o princípio da vida, a Luz e o Amor. Este Ser é ao mesmo tempo o agente e a testemunha do processo de sua própria manifestação. Como dizem os sábios de todas as grandes religiões, todos os Seres da hierarquia Divina são sua imagem e semelhança. Sim, nós não somos indivíduos. De fato, indivíduos não são coisas reais, eles são artefatos ilusórios formados pelos resultados dos resíduos da ação da manifestação divina. Aqueles que se iluminaram sabem disso, porque vivenciaram a dissolução desses agregados e expuseram sua essência Divinal como a única realidade.

O Ser Divino é amor, ele não estabeleceu escrituras, regras de conduta, normas morais, julgamentos e punições. O Deus perverso, moralista, que julga e condena é uma criação humana sacerdotal, para controle de seus seguidores. Por isso religião é um perigo e faz mal. Nós não necessitamos de religião ou de sacerdotes, o Ser Divino nos ouve quando a Ele nos dirigimos com o coração. Nossa relação com Ele não é dualista, não existem dois. Nós somos um!

Religião

A religiosidade faz parte da ilusão, ela é consequência da visão equivocada que as pessoas têm do processo cósmico. Mas que ilusão é essa e como ela surge? Em verdade a ilusão surge por nossa arbitrariedade antropocêntrica que entende que o mundo deve ser tal como os nossos sentidos dizem que ele é. Mas, isso não é uma verdade. De fato, o que os sentidos nos mostram como sendo o mundo é um artefato enganoso que emerge da interpretação que o córtex cerebral faz do processo cognitivo do corpo animal que usamos como veículo. Assim, as coisas não são como parecem ser e o que denominamos matéria é de fato tão sutil como o que denominamos espiritual, porque no cosmos tudo é sutil, etéreo, imaterial. A vivência dos sábios, em condições de consciência expandida, nos mostra isso e as últimas interpretações da física quântica apontam no mesmo sentido, ou seja, a imaterialidade do estofo da materialidade. Por isso, digo que a religiosidade tem suas raízes na visão ilusória da realidade. Por isso, o religioso vive com a percepção equivocada de que devemos viver de maneira sofrida, sentimentalista e moralista, porque é isso que agrada a seu Deus que pede escrúpulos.

Além das Dualidades

Mas, o Absoluto (Cit), o núcleo consciencial do qual somos imagem e semelhança (Citi), e que é a nossa conexão com o Todo, é um Ser amoral. Nem moral, nem imoral, simplesmente amoral. Por isso, nossa relação com o Absoluto que é nossa matriz primeva, deve ser uma relação de “amor”, sem espaço para qualquer outro sentimento que não uma relação ética com a vida em seu Todo.