Ações e Consciência

Ao analisarmos nossas ações e consciência, qual detém mais importância? Geralmente, julgamos um homem por suas ações. Porém, desde tempos imemoriais, místicos indianos deram mais ênfase à consciência que está por trás delas.

A história seguinte, com seus comentários precisos, é uma sátira cortante aos seguidores ortodoxos de regras externas, que nunca descobrem o espírito e intenção que as fundamentam.

O Cavaleiro Perigoso – Ações e Consciência

Rani e Paramanand

Era um meio-dia quente, mas Rani e Paramanand não se importavam. Pelo contrário, seguiam seu caminho entretidos em animada conversa, até alcançarem um rio, com uma aldeia do outro lado. Eles tinham que entregar uma mensagem de seu Guru ao chefe dessa aldeia e precisavam retornar ao Ashram à noite.

“Irmãos, não é possível achar uma balsa?”, uma voz ansiosa perguntou a eles. Viram, então, uma jovem esperando sob uma árvore Banian, sentada num banco.

“Nenhuma balsa pode ser encontrada dentro da distância de cinco milhas”, disse Paramanand.

“O que devo fazer então?” . A jovem não lançou a pergunta particularmente a Rani e a Paramanand, porém expressou-a para desabafar sua difícil situação.

“Por quê? Qual é o seu problema?”, perguntou Rani.

“Minha mãe, que foi visitar a casa de meu tio, do outro lado do rio, há quinze dias, quando a água do rio chegava apenas ao joelho, está seriamente doente. Ela me quer a seu lado imediatamente. Mas como posso ir?”, perguntou a si mesma a jovem, com voz angustiada.

“O que podemos fazer? Você deve caminhar pela margem, para o leste, se quiser achar uma estação de balsa”, disse Paramanand e entrou dentro da água.

“Minha irmã, posso carregá-la para o outro lado, se você não se importar com a inconveniência de sentar-se em meus ombros”, propôs Rani. Ele era forte e sua voz vibrante de sinceridade e simpatia.Ações e consciência

A Ação

A moça sorriu entre lágrimas, aceitando sua oferta. Assim sendo, Rani aproximou-se dela e ajoelhou-se, de tal forma que ela conseguiu sentar-se sobre seus ombros.

Dessa maneira, Rani seguiu Paramanand e cuidadosamente atravessou para o outro lado, ajoelhando-se outra vez ao término do trajeto, na margem oposta, para que a jovem descesse. Ela agradeceu-lhe e correu para a aldeia.

“Pobre moça! Estava tão ansiosa para ficar com sua mãe doente!”, observou Rani. Contudo, Paramanand não fez nenhum comentário e, de cara feia, conduziu-se como se Rani tivesse cessado de existir!

O alheamento de Paramanand permaneceu inalterado, mesmo durante a viagem de volta. Se acaso falasse, era curto e rude com seu companheiro.

Quando voltaram ao Ashram, relataram sua missão ao Guru.

O Guru

“Foi tranquila a viagem de ida e volta a seu destino?”, perguntou o Guru.

“Oh! Sim, Guruji, foi muito agradável”, disse Rani. Mas Paramanand nada disse.

“Vão comer e descansar. Vocês devem estar cansados”, disse o Guru a ambos, afetuosamente.

Os dois discípulos foram embora, mas um pouco mais tarde, Paramanand retornou ao Guru.

“O que há com você? Por que está tão sombrio?”, perguntou o Guru.

“Guruji, Rani disse-lhe que nossa viagem foi agradável e talvez tenha sido para ele. Porém, eu fiquei muito transtornado, já que ele fez algo horrivelmente inconveniente!” , replicou Paramanand.

“O que foi?”, perguntou o Guru, um pouco intrigado.

“Quantas vezes temos sido avisados para não tocar em mulheres! Mas Rani fez essa coisa grotesca de levantar uma jovem mulher e carregá-la em seus ombros! Tremo só em pensar nisso. Sim, Guruji, ela era jovem e bela também. Podia ter dezesseis ou dezessete anos ou…”.

“Não importa a idade dela, Paramanand, vamos investigar o assunto”, respondeu o Guru, mandando-o para um canto do aposento. Paramanand foi e sentou-se murmurando, como se fosse para si mesmo:

“Atravessar o rio carregando uma jovem! Ó meu Deus!”.

A Lição de Paramanand

O Guru mandou chamar Rani:

“Você encontrou alguma dificuldade ao caminho?”, perguntou ao discípulo.

“Dificuldade? Não, Guruji! A única dificuldade que poderia haver seria se o rio estivesse cheio. Porém, o nível da água não era mais alto que meu peito. Eu até mesmo carreguei um viajante através das águas!”.

“Um viajante, é? Uma jovem de dezesseis ou dezessete anos ou…”, gritou Paramanand, incapaz de conter sua angústia por mais tempo.

“Certo. Era uma jovem em apuro…”, disse calmamente Rani.

“O que aconteceu a ela?”, perguntou o Guru.

“Ela desceu na outra margem do rio e correu para visitar sua mãe que estava doente, se me lembro corretamente”, respondeu Rani.

“Muito bem. Pode ir.”.

Rani foi embora e, logo depois, o Guru disse para Paramanand se aproximar:

“Agora, Paramanand, quer fazer o favor de se livrar da jovem de dezesseis ou dezessete anos que está em seu pescoço?”.

“No meu pescoço, Guruji? Nunca toquei nela! Ela sentou-se no pescoço de Rani!”.

“Quanto ao que concerne a Rani, a jovem deixou-o na margem do rio. Mas ela não se separou de você durante todas essas horas. De fato, o cavaleiro perigoso está firmemente sentado em seus ombros, segurando sua garganta miserável com suas garras. Ele pode esganá-lo a não ser que você faça um esforço de homem para livrar-se dele!”, disse o Guru.

Paramanand ficou silencioso, com a cabeça pendida. Vagarosamente seus olhos encheram-se de lágrimas.

“Compreendo minha estupidez, senhor”, disse ele com voz sufocada.

“Histórias da Índia Antiga” – Adaptado pela Equipe IYTA Brasil

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