Karma – Ações e Destinos

KarmaNo misticismo indiano, o Karma é um conceito altamente complexo. Se as coisas com as quais não contávamos devem nos acontecer como consequência de uma certa espécie de ações ou pensamentos de dias anteriores (ou mesmo vidas passadas), podem ações ou pensamentos de espécies diferentes alterar tais consequências?

A história seguinte lança uma luz sobre a questão, embora não se proponha a dar uma resposta ao completo enigma do Karma. Afinal, sofrimentos e alegrias não são exclusivamente consequências de atos bons e maus, mas são também experiências necessárias para o nosso crescimento psíquico. Mas, isso é uma questão diferente.

Karma – O Eremita Vidente

Numa floresta, nos arredores da cidade de Pratisthana, vivia um eremita que era considerado um gênio fantástico para predizer eventos. As pessoas afluíam para ele a fim de saber seu futuro, sem se importar com o fato de que o eremita não gostasse de satisfazer-lhes a curiosidade.

Por consequência disso, o eremita continuamente mudava de acampamento, adentrando-se cada vez mais na floresta, até que as pessoas ficaram cansadas de procurá-lo e desistiram de sua busca.

Vipul e Vijan

Um dia, Vipul e Vijan perderam-se no caminho, enquanto tomavam um atalho na floresta, no percurso entre Pratisthana e outra cidade. Perambularam à volta até ficar escuro. Tinham medo dos ataques das feras ou de bandidos e, por isso, procuravam desesperadamente por um abrigo.

Eventualmente, tarde da noite, viram um feixe de luz atrás de um arbusto. Aproximaram-se do lugar com o coração trêmulo e logo alcançaram uma cabana, perto de um riacho murmurante, numa atmosfera cheia de fragrância de sândalo e folhas de Tulsi.

Então, espiaram dentro da cabana e viram um velho imerso em transe. Inegavelmente, adivinharam que ele era o eremita reputado por suas acuradas profecias e, por consequência, o medo os abandonou em sua presença.

Acocoraram-se no chão da cabana e, assim que o eremita abriu os olhos, prostraram-se diante dele. O idoso ouviu a história que contaram e deu-lhes frutos variados para comer.

Relaxem. De manhã, tomem um banho no riacho. Alguns dos meus discípulos devem estar aqui depois do amanhecer. Pedirei a um deles para mostrar-lhes como sair da floresta”, disse o compassivo eremita.

Eles fizeram o que foi aconselhado pelo eremita. Porém, quando chegou a hora de partirem, colocaram-se diante dele com as mãos postas e disseram:

Senhor, sabemos de suas maravilhosas capacidades para predizer o futuro das pessoas. Seríamos tolos se deixássemos sua presença sem conhecer nosso futuro, agora que o destino nos colocou face a face com o senhor!”.

Olhem aqui rapazes, não gosto de predizer coisas. Pode não ser bom para vocês conhecerem o futuro. Além disso, seu futuro como está agora pode não permanecer inalterado!”, disse o eremita.

Entretanto, os jovens permaneceram onde estavam, esperando que o eremita satisfizesse seu desejo.

Tudo bem”, disse o eremita. “Sentem-se quietos por um momento.”.

A Previsão do Eremita

Assim sendo, Vipul e Vijan sentaram-se de pernas cruzadas diante dele, enquanto o eremita meditava sobre eles. Logo depois, olhando para Vipul, o vidente disse com a voz firme daquele que sabe:

Você será um rei dentro de um ano.”.

Em seguida, com o olhar fixo em Vijan, disse:

Que pena, rapaz. Você morrerá nas mãos de um assassino, dentro de um ano!”.

Finalmente, os dois amigos inclinaram-se diante dele e despediram-se.

Consequências

Uma vez na floresta, Vipul não podia conter sua alegria e dançava como um possesso. No entanto, Vijan ficava cada vez mais sombrio.

De volta à cidade, Vipul comportou-se cheio de orgulho e arrogância:

Vou decapitá-lo quando me tornar rei!”, era sua fala quando ficava aborrecido com alguém, incluindo seus companheiros. As pessoas sabiam que o eremita profetizara que ele seria um rei, de tal forma que estavam temerosas de contradizê-lo. E, por conseguinte, diante dele conduziam-se com temor.

Em contrapartida, Vijan, que era um professor, fazia seu trabalho com grande devoção e passava o resto de seu tempo orando. Quando não estava orando, decerto estava servindo pessoas à sua volta. Ademais, era humilde com todos. E, dessa maneira, vagarosamente saiu de seu humor sombrio e a morte não mais parecia se agigantar diante dele, posto que havia se entregado a Deus.

Sorte, Azar ou Karma?

Assim, seis meses se passaram. Nesse interím, numa noite, Vipul chamou Vijan e disse:

Querido amigo, vou sair para escolher um lugar para meu futuro palácio. Você não quer me ajudar na escolha?”.

Sem dúvida, Vijan acompanhou Vipul. E, enquanto estavam ambos examinando uma região deserta, Vipul tropeçou em um pote meio enterrado. Ao desenterrá-lo e destampá-lo, viu que continha ouro.

Urrah!”, gritou. “Minha sorte começou a despontar! Agora devo usar este dinheiro para preparar-me para receber a coroa que está vindo para mim!”.

Todavia, ele mal acabara de falar quando um bandido pulou de um arbusto e tentou apoderar-se do pote em suas mãos. Quando Vijan veio socorrer o amigo, o bandido atacou-o com um punhal. Contudo, Vijan era mais forte que ele e também conhecia truques de auto-defesa. De tal sorte que deu um leve murro no sujeito, que deixou o punhal cair da mão. Em conclusão, Vijan recebeu um corte no ombro e o bandido fugiu.

Karma

Em virtude do ocorrido, o agradecido Vipul ofereceu a Vijan a metade da riqueza que o pote continha. Mas, Vijan polidamente recusou a oferta, já que, como tinha que morrer brevemente, não necessitava de dinheiro.

Vipul gastou a riqueza extravagantemente, comendo, bebendo e se divertindo de muitos modos dúbios.

Quando minhas Ações alteram meu Destino

Um ano inteiro se passou. Não havia sinal de qualquer coroa que estivesse chegado para Vipul, nem da morte se aproximando de Vijan.

Esperaram durante algum tempo. Depois, foram procurar o eremita que, enquanto isso, havia se entranhado ainda mais na floresta.

Senhor, por que suas profecias deram errado?”, perguntaram-lhe quando, por fim, o encontraram.

O eremita sentou-se em meditação por um longo tempo. Então, disse a Vipul:

Seu destino mudou por causa de suas estúpidas ações durante esses meses. A coroa que lhe era destinada, foi reduzida a um pote cheio de ouro que você achou no campo.”.

Virando-se então para Vijan, disse:

Suas preces, humildade e confiança no Divino mudaram seu destino também. A morte pela mão de um assassino foi reduzida a um mero ferimento produzido por ele.

Os dois amigos retornaram silenciosamente.

Histórias da Índia Antiga – Adaptado pela Equipe IYTA Brasil

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