BHUJANGASANA – SIMBOLISMO DA COBRA

BHUJANGASANA

 

BHUJANGASANA – Swami Sivananda Radha

Bhujanga significa serpente.

A postura se inicia de uma posição em decúbito frontal tendo as palmas das mãos apoiadas no chão próximas aos ombros. A espinha é alongada e o quadril contraido quando da elevação da cabeça e do peito. “Da mesma forma como uma serpente, a espinha deve se mover de uma ponta a outra, quando a cabeça se ergue, o movimento é transmitido à cauda” (B. K. S. Iyengar).

As pesquisas mostram que o símbolo da cobra pode ser encontrado em quase todos os países. Seu veneno mortal significa morte rápida, no entanto a sua habilidade em desprender sua pele e largá-la simboliza renovação e ressurreição. Representa a fertilidade, nascimento e morte; sabedoria e tentação, o bem e o mal; o paradoxo da luta pela vida.

A implicação psicológica da serpente está no fato de sermos invadidos inesperadamente pelo veneno que a vida joga sobre nós a cada volta; o colapso da economia, da saúde, da vida. A batalha é constante. O resultado muitas vezes é exaustivo e insolúvel até que realizemos, como afirma São Paulo (o apóstolo) “que nunca seremos tentados além das nossas capacidades”. Como aplicar esse conceito à essa postura?

2) As lembranças negativas da serpente são extensas nos mitos através dos tempos. Na tradição judaico-cristã, ela representa a tentação. O homem é banido do jardim do Éden devido a ela, voltando a sua mente para a procriação para assegurar a continuação da sua espécie.

A virgem Mãe é mostrada muitas vezes com seu pé sobre a cabeça de uma serpente. Uma idéia similar que existe ainda mais antiga é a do deus Indiano Krishna dançando sobre a cabeça de uma enorme cobra. Ambos os mitos significam que a atenção e conscientização na execução da postura pode nos fazer identificar o mal e nos sobrepormos a ele. No inicio sente-se uma sensação estranha no estomago e leva-se algum tempo até que esse aperto, esse caroço na garganta desapareça. Também a cabeça pesada, o pescoço enrijecido e o coração pulsando no pescoço, vão cedendo aos poucos, à medida que a prática progride.

3) Na permanência dessa postura sinto o meu peito se abrindo, oferecendo-se à grande Serpente, que é a Força Criadora.

Despertará em mim alguma vez o poder espiritual dormente?

Desconhecendo qualquer potencial latente, o esforço exigido parece muito grande. Penso numa serpente. Ela não tem pálpebras. Seus olhos estão sempre abertos, sempre enxergando, sempre alerta.

A serpente não fala, enquanto eu, desperdiço palavras e pensamentos a minha volta todos os dias, pois não tenho talvez coragem de olhar por trás do grande silencio dentro de mim. Será que a introspecção abriria recipientes com conteúdos indesejáveis? Penso nisso, percebo apenas o quanto estão presentes e como não sinto alivio realizando apenas sua presença? – Como eu poderia descartar minha pele velha? “GOSTARIA DE ME RENOVAR”.

O que mais uma serpente representa para mim? O que mais posso aprender com ela? A sabedoria não chega correndo. Ela vem deslizando lentamente. De repente percebo algo novo. Algo foi atendido, aprendido e passa a substituir os inúteis desejos do meu coração.

Eu não sou sem espinha dorsal. Minhas costas estão se fortalecendo preparadas para ascender das fendas mais profundas.

Uma sensação de poder penetra meu ser. Posso aurir, inspirar, um novo alento vital.

A vida é sagrada e tem um propósito.

BHUJANGASANA4) SHESHA a serpente cósmica se oferece como leito para Vishnu, o princípio eterno da conservação, o 2º deus da trilogia hinduísta, que flutua sobre as águas primordiais da existência.

Com suas sete cabeças infladas como as da “NAJA”, protege o sono do deus adormecido, enquanto a deusa da beleza e prosperidade Laksmi, massageia seus pés com “amrita” o néctar divino.

O despertar do deus nesse seu aspecto de Narayana, faz com que se inicie o processo de criação do Universo.
A serpente de muitas cabeças infladas SHESHA, também conhecida como ANANTA é a soberana de todas as serpentes, simboliza o infinito, e a fertilidade que continua para todo o sempre. O seu corpo enrolado envolve, fascina, e leva os seres humanos para a manifestação na natureza.

Emoção e sexo, poderes que estão na natureza, devem ser reconhecidos e colocados sob o controle e o equilíbrio proporcionados pelo Yoga, para que se possa evoluir no caminho do HOMEM.

5) KRISHNA dança sobre a enorme cabeça da grande serpente KALYA que representa a natureza e seus poderes. Muitas vezes essa energia caótica é criação e destruição; mas KRISHNA pode manter a manifestação desse poder sob o seu controle.

Essa é a razão de vários textos sagrados sobretudo o Bhagavad Gita se referiram a KRISHNA como o único e mais importante ponto focal. Simboliza o transcender a natureza e seus poderes, aquela força genérica que serve apenas para dar continuação às espécies. Quando a natureza se coloca como uma tela entre o aspirante sincero e sua natureza divina, seu Eu Maior, então localiza KRISHNA para transcender esse obstáculo.

Submetendo a serpente, a nossa vontade na Bhujangasana nos elevamos e reforçamos nossa aspiração à perfeição.

6) A cobra tem que continuamente trocar de pele para crescer. Quantas vezes um aspirante do verdadeiro Yoga deve trocar sua velha pele para permitir que a nova possa emergir?

Cada vez que isso ocorre é como se fosse uma mini ressurreição levando a um crescimento maior.

Se o aspirante puder seguir os passos da sábia serpente interior, desenvolverá aquela percepção inata, que arma cada um com a energia magnética do poder espiritual.

7) A Kundalini Shakti simboliza o poder da serpente que está latente na base da coluna vertebral bem trabalhada na bhujangasana.

É uma incrível força cósmica represada em cada ser humano a ser potencializada pela prática do Yoga. A habilidade na ação, uma das características dessa filosofia de vida, nos permite o acesso a esse reservatório de energia, a kundalini, também conhecida como a serpente enrolada.

Como conseguir isso? Segundo NAGASENA instruindo o seu rei, a serpente progride arrastando-se sobre o ventre, digerindo seu auto conhecimento a nível fisiológico.

O progresso por conhecimento significa uma experiência pessoal que desenvolve a descriminação necessária para atingir seus objetivos mais elevados.

Ao fazer a “BHUJANGASANA” mentalize a base da sua coluna vertebral onde jaz dormente a Kundalini. Observe, sinta conhecimento dela.